domingo, 27 de janeiro de 2013

vai ser melhor


Tive razão - Seu Jorge





era pra ser só uma parada. nada demais. coisa de quem tem medo de se perder.  não havia mais desejo.  vento que congela,  fez do pitsop sua morada.  parada, era só concreto, sem encontro.

"demorou, vai ser melhor".

novamente em busca das cores, dos ritmos e da arte, cenário de sua vida. não queria ficar parada na esquina do acaso. inventar também é sina.

então a gente volta, sem compromisso algum. o amigo do amigo do vento ajuda.


demorou, vai ser melhor...







ps: quase 2 anos sem escrever... vamos brincar, tá tudo muito sério...

domingo, 24 de julho de 2011

Distração


Para Prill & Rafael





Amy Winehouse - Will you love me tomorrow?




“Eu sabia que te amava quando me vi dentro do seu olhar”.


Ela disse, ele olhou mais uma vez. Era sua maneira de dizer, “é verdade, te amo”. Olhar que dissipa o medo, era a resposta que queria. Sabiam-se amados em silêncio. Sabiam-se completude de vida. Ela, rock’n roll; ele, "caetaneamente" eclético. Ou não. Comunhão precisa de pausa. Precisa do olhar que agasalha. Eram estranhamente diferentes na busca do mesmo caminho. Ela tão viva, desesperada por um amor que não conhecia. Ele, eterno questionador, em busca de certezas. Descobriu que o amor se faz no nevoeiro. “Mergulha!”

“Eu te admirei no dia que te conheci”. “ São três horas e deixo aqui meus beijos “. Ria, sorria. “Eu acho que tô apaixonado”.

Não foi uma vez que ele disse. Dizia ao seu espelho, dizia ao seu divã. Lugar de encontro, de aconchego. Dizia ao vento.


“Foi lá que a conheci?”

Não, acho mesmo que já estavam juntos no encontro das palavras. Ele disse. Ele sabia-se enredado pela poesia que ela traçava em sua vida. Pela poesia que ela traçava com suas pernas. Ela foi ao seu encontro. Ela, sua maior liberdade. Entregava-se livre diariamente. Desejava os encontros de pernas e palavras. Desejo que transbordava na leveza de serem distração.

Eram únicos, tão distintos. Estavam juntos. Eram desde sempre.

Parece mais um encontro de palavras com final feliz. Mas não qualquer encontro. Também um encontro de bites & bytes. Essa era a história que Sunny contava....

Que sejam felizes todos os dias. Experimentem a novidade da vida. Brindem com a casa repleta de amigos.

E celebrem em silêncio, na cumplicidade do olhar que exclama!




* a Prill foi quem me apresentou duas das maiores cantoras, duas divas. Amy Winehouse e Esperanza Spalding. Hoje não dava pra usar outra trilha.... Valeu, Amy!

** A imagem que usei é do belíssimo filme " A insustentável leveza do ser" ...

domingo, 19 de junho de 2011

Nem precisa ser meia-noite...


Foto: Rodrigo Bressane





Même souis la pluie - Françoise Hardy


" é maravilhoso, é maravilhoso!!! "...



"Meia-noite em Paris", filme de Woody Allen, reproduz esta exclamação.

Não é apenas o roteiro e os diálogos improváveis que me seduziram. Foi a rendição. Ah, lá está ela, maiúscula, exuberante, é Paris! Tudo é primoroso. Já não digo do filme, ou seria? Bistrôs, ruelas e esquinas, as praças, as cores surreais (seria Dalí ou Picasso quem deixou a paleta de cores?), o céu, a luz, a boemia, a paixão. Se faz delicada para nos salvar. Paris é destino! Habita sonhos, acolhe nossa alma... É a metáfora do amor que agasalha.

"Meia-noite em Paris" é meu filme, se faz nosso. Farsante, mais uma vez!

Não é o presente que rejeito. É a ausência. E para sempre estará a cidade luz a nos resgatar. Memória involuntária daquilo que permanece.

E nem precisa ser meia-noite...





"Não há passado,
nem há futuro.
Tudo que abarco
Se faz presente"


Cecília Meireles







* adorei o filme, mas Woody Allen roubou o meu roteiro:) Ah, Paris...

**Parabéns, Chico Buarque, aniversariante do dia!

domingo, 22 de maio de 2011

não há paraíso





Kings of Convenience 24-25

ela tinha 21, ele, 22. amavam-se desde o colégio, ainda adolescentes. mas era um amor não dito. amor que esconde dói ainda mais. torna-se maldito.

ela queria ser outra pessoa, ele queria ela. nesse espaço, silêncio.

ela desenhava nuvens. concebia a beleza em seu traço. construía sonhos, era seu destino. arquitetava o mundo. ele cuidava do tempo e calculava. administrava o retorno, seu propósito de vida.

ela casou. ele não, era só num mundo de ironias. nunca fez nada para mudar. ela teve um filho. ele, nem livros. ela pintou o cabelo, ele perdeu.

ela esperava, ele escondia. se afastaram por décadas. gostava da sua vida bucólica, um disfarce pra melancolia. ela vivia no seu castelo construído.

como são felizes!, era isso. mas ela ainda acreditava no vento.

ele ficou rico. tinha sorte.

onde ela está?

ela viu-se sozinha no dia do diagnóstico. descobriu sua finitude. se desfez em nuvens. seu temporal.

apenas um ano?!

ele não sabia. ela era só revolta.

por que eu?

ele e seu dinheiro. ela e sua morte. ele, ela.

ele soube, a irmã foi a mensageira da morte. nunca a perdoou.

não!

ele era desespero. ela já era aceitação. era dor e amor, todos os dias. dizia ao filho, sem cessar, te amo! admirava seu marido. também o amava.

mas e ele, onde está?

sua necessidade de acertar histórias. sua dívida, um amor a resgatar. precisava quitar, cansou da espera.

onde ela está?

foi atrás dela numa tarde de domingo. odiava domingos. seu amigo está aqui, mamãe. ele entrava no quarto escuro, gelado como a morte. ela arrumava seu cabelo, seu grito desesperado em busca do tempo. ele sentou-se ao lado da cama, ela deu-lhe a mão. ele chorou compulsivamente. ela o consolou.

ele balbuciava sons, ela enfim chorou. eu ainda o amo. ela era sua vida. eram cúmplices na dor da separação, não da morte.

ele contou sua vida. resumiu décadas em trinta minutos. seu filho tem o seu sorriso. ela novamente sorria. ele sabia que seria sua despedida. ela tinha naquele momento uma fotografia.

ela disse que o amou e sorria. ele novamente chorava. sentia-se estúpido, ela era seu único amor.

ele teve medo de dizer qualquer coisa. sentia-se covarde, pequeno, quando viu a fotografia da família que ela construiu.

ela esperou, ele calou.

ele está pra sempre só. ela partiu.

nunca mais diria nada. nunca disse. tornou-se refém da liberdade de não dizer. mentira, era cativo daquela terrível dor. desistia um pouco da vida todos os dias...

se tornou amargo. infeliz, em busca do tormento.

não há paraíso!


domingo, 15 de maio de 2011

somos instantes...





Três Dias - Marcelo Camelo e André Dahmer


era uma vez a batida perfeita. não, era uma vez a busca. sabia-se insatisfeita, curiosa. entendia-se ávida pela vida e pelo encontro. achava-se mosaico, descobriu-se confusa. míope na vida, era reflexo de si e do outro. tudo muito opaco. não tinha nada a dizer: estava contemplação. mentira, era seu medo em estado bruto. era um amontoado de fantasmas, amava-os. era sua enorme "Insensatez", bossa nova travestida de valsa. tudo sem ritmo, descompasso. era seu [des]caminho. pára tudo, desce.

assim partiu: sem explicação, nem despedida. jogou a toalha. era seu choro solitário. sua escolha, seu instante. era apenas solidão à meia luz....

instantes ....

agora chega! faça-se nova, novamente. seja redundante, mas seja. vai ver até feiúra tem serventia...e tem!

brinde ao eterno desconhecido! faça-o terno. compartilhe seus medos, eles continuam. ofereça a si, sem restrições. não temas! seja seu credo, sua oração.

ela, a farsante de outrora, estará contigo. eles também...

num mundo de finais, descobriu-se instantes...

era novamente vento e estava em paz.












PS: era uma vez um calçadão, sem pretensão alguma. a janela [in]discreta à espera do encontro. poetas-amantes e "amores amáveis", avesso e descanso, guerra e paz. parei por mil motivos que não lembro agora. volto e continuo em busca da batida perfeita.

PS2: meus amigos, tô sem jeito, paciência ... !

PS3: Claudine, seu texto foi o culpado! Welcome back, querida! E essa música do Marcelo, minha gente, o que é isso???

PS4: cuidado com promessas feitas num bar .....

PS5: esse post tem um subtítulo, uma piada interna: "Tô bêbada? Tô!" :)

domingo, 10 de outubro de 2010

É mais que uma fotografia!

Para Angela Esteves e Ronaldo Martins



Eu quero botar meu bloco na rua - Sérgio Sampaio



O cinza da manhã era cor de nostalgia! Tudo seria reinventado por suas memórias, era sua salvação. Naquele instante, erros e acertos de suas infinitas vidas traziam sentido para seu hoje. Cheiro e sabor de melancolia.

Estava presa às fotografias de sua "Itabira". Chorava e sorria ao reencontrar tantos momentos de ausência e alegria histérica. A distância e o tempo parecem colorir as mesmas paisagens. Faz diferente sendo apenas igual.

Sentiu uma profunda inveja da fragilidade que lapidou sua humanidade. Fez-se terna e contraditória. Livre para novos caminhos e outros destinos.

Hoje, era um amontoado do que deveria ser feito. Não! A vida lhe prometera mais naquelas fotografias. Sabia que apenas ela poderia alterar o curso de sua vida. Perdeu-se num choro solitário por reencontrar-se pequena.

Era a única [ir]responsável por ter a vida repleta de vazios. Penitenciou-se e por si foi perdoada. Expôs sua fragilidade como um marco. Era seu fracasso? Não!

É sua chance. É mais que uma fotografia.




Confidência do Itabirano

Carlos Drummond de Andrade


Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!





* Eu sabia que voltaria, mas nada como a trilogia 10/10/10. Mas voltei porque li isso: "Nostalgia. Uma espécie de infecção que deixa a gente exposto ao que foi belo e dá saudade. Será que toda criança vai sentir isso um dia?" Ronaldo Martins. - A música do post, tão linda, foi-me dada por ele. Um vento poderoso soprou por ali! Obrigada, Ronaldo!

** A foto do post foi roubada, literalmente, da Angela Esteves. Ela e Ronaldo, adoráveis amigos, me fizeram chorar boa parte do sábado. Ângela sabia...

*** Tudo é muito mais que uma fotografia. "Itabira" está viva.


sábado, 24 de julho de 2010

Memorial





O que é bonito - Lenine


Despedaçada, era assim que começava a história. Contrariou o roteiro e o início era seu fim. Não era medo, era a ausência que atormentava. Seu vazio, sua desesperança. Suas palavras insistiam no silêncio. Precisava do futuro naquele instante e criou novo roteiro. Estranhamente, algumas páginas agonizavam ao longo da trilha. Tudo na mais perfeita desordem. Parou e trouxe à memória registros de vida - sim, era verdade. Não eram poucos, eram intensos. Sentido se faz? Sentido não há.

- "Onde está todo mundo? Onde ficou a minha trilha?", gritou em silêncio.

Se calou para escutar.


- "Fala, silêncio?"

Fala. A palavra se revela no silêncio, mas era necessário desejo.

- "Desejo não há, onde mando criar?"

Jogou outras páginas do roteiro inacabado para o alto. Não contava que o acaso traria outras, em branco.

Sua chance era pintada de branco. Nelas, um memorial.

Talvez uma história, mas só talvez.

Reencontrar ainda é preciso.

É sua fé.





"Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio."
Clarice Lispector









* O Oráculo agasalha as palavras, em silêncio! Exatamente ;)

** Música que é poesia. É Lenine...